A MATERNIDADE E A PATERNIDADE IMPERFEITA

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Ser mãe ou ser pai é uma das tarefas mais desafiadoras que podemos enfrentar na vida, por uma série de motivos: confundir e não conseguir separar o filho(a) de quem somos, ter expectativas e sonhos que não são os mesmos das crianças, tentar fingir ser melhor e mais perfeito do que realmente se é, disciplinar alguém mas sem tirar a liberdade de escolha, enfim, entre outros fatores não é algo tão simples quanto amar e deixar acontecer.

No consultório, quando atendemos uma criança, conseguimos ver claramente como os seus “problemas” (se forem reais) estão relacionados com as pessoas que dela cuidam. Alguns pais pecam por excesso de cuidado, outros são displicentes, enquanto outros simplesmente não sabem o que fazer ou mimam demais ou são controladores demais.

Por isso, sempre atendemos os pais ou responsáveis – ou pelo menos acompanhamos em consultas a parte o que eles estão fazendo, pensando e sentindo. Isto não significa culpar os pais pelo comportamento dos filhos. Significa, de novo, a enorme responsabilidade que é ter alguém sob os seus cuidados.

O ponto-chave do que se é traz mais influencia do que se faz? Como no ditado, faça o que eu digo e não faça o que eu faço, temos que pensar um pouco melhor. Segundo Joseph Chilton Pearce:

“O que somos ensina a criança muito mais do que o que dizemos, de forma que temos que ser o que queremos que nossas crianças se tornem”.

(Em inglês: “What we are teaches the child far more than what we say, so we must be what we want our children to become”).

E como podemos entender essa frase? Bem, as crianças são muito espertas. Muito mais espertas que queremos admitir. Assim, elas percebem a essência (ou personalidade profunda) de alguém e conseguem distinguir rápido o que as pessoas são do que elas dizem.

E é justamente por saber – ou intuir isso – que muitos pais acabam ficando desesperados quando se dão conta de que não conseguirão fingir algo que não são no longo prazo. Dependendo do jeito que cada um lida com sua própria imperfeição, as consequências de entender esta realidade podem provocar muitas emoções diferentes. O que quero compartilhar com vocês neste texto é que não há necessidade de esconder a imperfeição. O que chamamos de vulnerabilidade, em vez de ser uma fonte de afastamento, pode ser justamente a ponte para criar uma relação digna e de confiança.

Não sei se ficou claro o que disse. É óbvio que não somos perfeitos. Como não somos perfeitos e como o que somos vai influenciar nos nossos filhos, isto pode provocar uma espécie de dissonância cognitiva. Se não somos perfeitos e queremos que nossos filhos fiquem bem, como vamos fazer se a nossa imperfeição vai criá-los?

Existem saídas adequadas e inadequadas para este problema. Esconder ou fingir ou criar torpor não vai adiantar. Fugir ou procurar recalcar também não. O melhor caminho passa pela aceitação. Aceitação da própria imperfeição e da imperfeição do filho(a).

Evidente que isto parece ir contra todo um ramo de literatura de autoajuda que objetiva criar filhos perfeitos, saudáveis, bem adaptados. No fundo, o que se busca é um ideal do herói. O filho(a) que tem sucesso, glórias, é reconhecido, quiçá famoso. Aquele que vai dar orgulho e tudo mais.

É preciso saber separar o longo preparo de educação (investir em escolas e cursos e atividades extras; além de procurar criar uma visão correta das ações – ética e moral), de uma expectativa que visa tapar uma falta daquele que cria.

Em outras palavras, o fato de aceitarmos a própria imperfeição não significa que não vamos procurar fazer o melhor que pudermos. E também não significa deixar que o filho ou filha faça qualquer coisa que quiser. Porém, a aceitação da condição humana (não somos sobre-humanos ou super-heróis) retira um peso desnecessário, tanto para os pais como para os filhos.

A ideia central é ser quem se é e tentar melhorar – na medida do possível.

A união pela vulnerabilidade. É bastante comum o conceito de que os filhos veem os pais como heróis, colocando-os em um pedestal de admiração. Embora isto possa ser positivo, em virtude da identificação, também não exclui certos problemas, dos quais o menor é a frustração quando a imagem da perfeição se quebra.

Outro problema é que cria uma dessemelhança muito grande entre o genitor e a criança, uma sensação de ser inatingível ou uma hierarquia muito rígida, com falta de autonomia. Mas o que é ainda pior é que o ideal do herói é bastante perverso no que tange às relações. Um herói, por definição, não precisa de ninguém. Em sua perfeição suposta, nada lhe falta. Ou então, tem que esconder de todos o seu ponto fraco.

O nosso argumento aqui, seguindo o trabalho de Brene Brown (The Gifts of Imperfect Parenting), é que é justamente este ponto fraco – ou estes pontos fracos – que vão permitir uma maior união.

Observe os filmes.  Nos momentos em que alguém mostra toda a sua vulnerabilidade, toda a sua insegurança, os seus medos, temores e angústias é o momento no qual há maior proximidade. Por exemplo, estes dias vi “A Arte da Conquista”, com Freddie Highmore e Emma Roberts e na cena em que a mãe do George Zinavoy (Freddie Highmore) conversa com ele sobre as suas dificuldades no relacionamento e nas finanças, é o momento da virada. Não vou contar mais senão perde a graça.

Mas é simples de entender: nos momentos mais vulneráveis, quando deixamos cair a máscara da persona de perfeição é que nos abrimos para um nível de relacionamento mais profundo. Em resumo, um pai herói ou uma mãe heroína parece ótimo, porém, eles não precisam de ninguém, nem de uma relação mais próxima com seus filhos. O pior é que escondem os seus pontos fracos, o que é percebido pela criança com facilidade. De maneira que a relação, baseada na ideia de perfeição, acaba sendo estruturada em uma mentira fundamental.

Em resumo, temos dois polos:

Maternidade e paternidade que quer perfeição: “Eu sou perfeito(a). Logo, seja como eu e seja perfeito(a). Falhas não serão toleradas”.

Maternidade e paternidade imperfeita: “Eu não sou perfeito(a). Mas procuro melhorar a cada dia, nisso, nisso e naquilo que tenho dificuldade. Espero que você (filho, filha) procure fazer o seu melhor. Quando precisar, nas suas dificuldades, estarei aqui”.

 

Referência Bibliográfica: BROWN, Bene. The Gifts of Imperfect Parenting. Audiobook em inglês; BROWN, Bene. A coragem de ser imperfeito. Rio de Janeiro: Sextante, 2013; P/ Professor Felipe de Souza.

 

      Rosana Rossato

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