ANGELITUDE, UM ANJO AZUL EM CONSTRUÇÃO

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A forma como percebemos as coisas é forte condicionante do jeito como reagimos às situações e firmamos escolhas.

Há profunda relação entre a forma como vemos as coisas e os julgamentos que delas fazemos. Talvez, por isso, cuidar do que falamos seja considerada, por mim, essencial por revelar não apenas o que penso e sinto, mas, sobretudo, as atitudes diante das ações que promovo. E principalmente uma condição valiosa por quem deseja projetar uma imagem ou conceito sobre as tais “verdades absolutas” que todos acreditam conhecer, sejam elas positivas ou não, mas apenas SUAS verdades, o seu jeito de ser, ver, sentir e estar no mundo. E tal valorização não é fortuita, e repito, a forma como percebemos as coisas é forte condicionante do jeito como reagimos às situações e firmamos escolhas, mas também influenciamos pessoas. E por que a verdade não anda por apenas um caminho é preciso alargar as veredas do nosso percurso para enxergarmos uma paisagem mais reveladora.

E a reflexão tecida até aqui tem por objetivo, exatamente, elastecer o horizonte dos “pais especiais” para além da aparência sem negar a sua força. Nossa presença se firma pela associação sinérgica de alguns elementos: negação, adaptação e aceitação. E somente atribuindo a cada um desses elementos, sua verdadeira estatura é possível ultrapassar a visão da aparência como algo superficial, definitivo e enxergá-la de uma perspectiva mais integral, ou seja, defini-la como mais um componente fundamental de nossa presença no mundo, missão, mas que não a expressa em sua plenitude.

A chegada de uma criança com deficiência geralmente torna-se num momento traumático e de mudanças, dúvidas e confusão. A maneira como cada família lida com esse evento influenciará decisivamente na construção da identidade do grupo familiar e, consequentemente, na identidade individual dos seus membros. O próprio grupo familiar é obrigado a desconstruir os seus modelos de pensamento e a recriar uma nova gama de conceitos que absorva a realidade.

O nascimento de um filho com deficiência (física ou intelectual), a sua estrutura razoavelmente estável, a definição de papéis e o estabelecimento de regras, de acordo com os seus próprios valores, exige aos seus membros uma redefinição desses mesmos papéis, de acordo com os novos valores e padrões de comportamento, para se ajustarem ao novo estilo de vida. E sabemos que a maioria das famílias aprende através da tentativa e erro. A cada mudança, impacto ou crise, a família se reestrutura.

Na fase de NEGAÇÃO os pais não querem acreditar no diagnóstico, não se encontrando a família preparada para conviver com algo dessa natureza. Até porque, a família esperava o nascimento de um bebé saudável, sem problemas. Os sentimentos de culpa, rejeição ou desespero, alteram as relações sociais da família e a sua própria estrutura. Os sentimentos de culpa e vergonha pela criança deficiente levam a que os pais se sintam culpados e envergonhados por os sentirem. Todas estas reações são comuns a todas as pessoas, perante situações de frustração e o conflito. Assim, muitos dos sentimentos destes pais são compartilhados por outros pais em diversas fases da sua vida. O receio da reação da família alargada, e da sociedade em geral, ligadas às dificuldades em conviver com as diferenças, leva a família a isolar-se. Algumas famílias lançam uma interminável busca por outros diagnósticos que possam negar a deficiência. Esta fase pode prolongar-se por dias, meses ou anos. Mas depois desta fase, os pais começam a perceber que o seu filho necessita ser atendido prontamente.

Inicia-se então a ADAPTAÇÃO, quando a família elaborou a perda (fez o luto) da “criança saudável” previamente concebida no imaginário familiar, começando a adequar-se ao diagnóstico, informar-se e entender o mesmo. A família começa a perceber o deficiente como um ser humano genuíno, integral e pleno de significado.

E finalmente chega à fase da ACEITAÇÃO, onde acontece um maior e mais realista contato com a criança e a sua deficiência. Os pais tornam-se mais participativos, procurando mais apoio, sugestões e esclarecimento. Alguns reconhecem que a tristeza e a frustração são sentimentos que devem ser encarados com naturalidade. Em geral ainda apresentam uma postura superprotetora, mas que com o tempo tende a diminuir. Quando a criança com algum déficit deixa de ser vista pela sua deficiência e passar a ser entendida como uma pessoa integral, com um novo olhar, atitudes e posturas. 

Nesse ponto para-se a dissertação técnica e mergulhamos nos sentimentos conflitantes dos pais, que ora faz homenagear os avanços do filho ora faz odiar a sua deficiência. E então se desenha outra fase que, talvez, nunca os liberte para amar acima de todas as dificuldades o filho especial, a NÃO ACEITAÇÃO PLENA. Todos já devem ter lido ou mesmo repetido “amo meu filho, mas odeio a sua deficiência”! E negam adjetivos carinhosos com possibilidades de leituras diversas, como a expressão “ANJO AZUL” para os autistas.

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Pensamentos, atitudes e ações positivas contribuem para desmistificar preconceitos e conscientizar a sociedade quanto às diferenças humanas, enquanto ressaltar o que lhes parece nocivo ou impedimento de viver livremente, conforme padrões sociais estabelecidos por quem desconhece a convivência com as pessoas especiais parecem um tanto ambivalente em relação à criança, ou seja, rejeição e projeção da dificuldade como causa da deficiência, significa atuar na contra mão da aceitação e criar um padrão perigoso de mútua dependência, lamentações e compaixões dos pais, para com a sua pouca sorte.

Independentemente do momento em que os pais entram em contato com a deficiência do seu filho, e de quão fortes e maduros possam ser, afastar a situação envolta em dor, medo e incerteza se faz necessário. O que não significa minimizar os problemas, prometendo um futuro fantasioso, mas investir em informações sérias e caminhar para a resposta às necessidades da situação. Olhar positivamente para a vida que se apresenta e fazer disso um trabalho de vida, que muitos chamam de missão, mas que cabe a cada um ouvir o que o coração diz e seguir esse caminho para ter uma vida mais feliz e não adoecer a família com um pessimismo que nenhum benefício trará.

 E ainda reforço a questão da angelitude, que os espiritualistas costumam dizer que somos todos anjos em formação, estamos nesse plano para evoluir e o nosso destino é nos aperfeiçoar, melhorar, mesmo que pareça uma tarefa difícil ou em alguns momentos instransponível.

Todos têm um trabalho para desenvolver nessa vida, a missão, e o atalho é cultivar boas relações, doar ao outro o que temos de melhor. Ninguém nasce iluminado, trilhamos o caminho que a vida nos apresenta, e se não cuidarmos para ser uma pessoa melhor dia após dia, julgaremos mais e perdoaremos menos.

Então, ver um filho especial como um anjo é vê-lo em evolução, é não menosprezar os desafios que enfrenta diariamente. É enxerga-lo como um ser humano que caminha para ser um anjo e alcançar a angelitude, alguém em formação buscando transformar suas “inferioridades” para ser aceito. Embora o problema esteja em quem não o aceita, enfim…

O que cabe a quem não o aceita? Ser incessante no amor incondicional e fraternal.

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O mundo precisa desse tipo de atitude, de devoção, de crença no outro! Empatia! Deixar de generalizar os efeitos da deficiência e perceber que ela não representa toda a pessoa, mas sim apenas parte de um todo a ser conhecido, amado e cuidado.

“O ato de aceitar compreende em conhecer que há uma ampla região neste “Ser Especial” que está à espera de ser explorada e esse processo de aprendizagem se dá muito mais na vivência prática do que no ensino formal.” (BUSCAGLIA, 2010).

   ROSANA ROSSATO

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