Aprender o quê? Para quê?

Olá pais, mães e educadores!

Recentemente conheci o blog Barro Molhado, uma comunidade de aprendizagem livre. Há anos, como educadora e mãe, busco sentido no currículo de nossas escolas e os meio como são oferecidos as nossas crianças. Aprender o quê? Para quê? Compartilho muito das ideias deste texto, por isso, pedi licença a Fernanda para publicá-lo aqui. É uma imensa reflexão para todos nós!

Saboreiem!

Luciana


“Quando falo sobre uma nova forma de educação, sobre educação ativa, livre, desescolarização as pessoas me perguntam: Mas e o conhecimento? Física, matemática, história…? E o futuro? E o vestibular? Resolvi escrever um texto sobre o que penso a respeito.

Não é novidade que o planeta e as relações humanas pedem socorro, que a forma como estamos vivendo não é sustentável, que estamos destruindo nosso próprio lar e nossa própria espécie como um câncer que toma conta do corpo em que está hospedado e mata sua casa.

Nossa cultura está passando por mudanças intensas e o paradigma da competição, do ter, do consumismo, do acúmulo, do excesso, da repetição, da monocultura, da fragmentação e do descartável começa a ser questionado. Novos valores começam a ser resgatados como a ludicidade, a cooperação, o ser, o afeto, o cuidado com o outro, a criação, a diversidade, a integração, a sustentabilidade e harmonia com a natureza, em diversos aspectos e instâncias da sociedade, inclusive na educação.

Aliás, a educação deveria ser a primeira a buscar novas formas de vida quando a que vivemos não está indo bem. A primeira porque é a base, porque é onde tudo começa, porque é através dela que a criança começa a entender como o mundo funciona e é justamente nesta relação do adulto com a criança, onde a vida em sociedade se inicia, que temos a chave para mudar tudo. Se nós, adultos, continuarmos reproduzindo o que aprendemos, tudo vai continuar como está, os mesmos valores, as mesmas crenças, as mesmas atitudes. Os adultos precisam se libertar, é como Krishnamurti diz “Para isso ele mesmo, o educador, deve ser capaz de libertar sua própria mente de toda a autoridade, de toda a nacionalidade, das várias formas de crença e tradição de modo que a criança compreenda – com sua ajuda, com sua inteligência – o que é ser livre, o que é questionar, inquirir e descobrir. (…) Como vocês e eu podemos ajudar a gerar clareza em nós mesmos para que a criança possa também ser capaz de pensar livremente no sentido de ter uma mente tranquila, uma mente quieta por meio da qual coisas novas possam surgir e ser percebidas.” (Obras reunidas de J. Krishnamurti: vol. IX. Amsterdam, 19 de maio, 1955. Fonte: Krishnamurti para principiantes – Antologia Básica)

Mas o que vemos é que a educação, na realidade, é um dos aspectos da sociedade que mais demora a mudar… A educação que temos em nossas escolas hoje está apenas repetindo o que não queremos mais, está enchendo a cabeça das nossas crianças com informações e tirando todo o espaço de ser, só se preocupa com o cognitivo. Onde fica o emocional e o físico?

O que a sociedade tem feito até agora é formatar os seres humanos, para que todos saibam das mesmas coisas, como uma fábrica, enchendo suas cabeças com conteúdos que estão facilmente acessíveis na internet para que passem no vestibular e sejam “bem sucedidos” em suas carreiras. Vemos hoje uma valorização da ideia e não da vida, do futuro e não do presente.

Uma das maiores belezas da humanidade é a sua diversidade, ninguém é igual a ninguém, nunca foi e nem nunca será. Deve ter algum motivo para a natureza ter-nos feito desta forma, não é mesmo?

Abafamos o que há de mais belo e genuíno nos seres humanos: sua essência, o que diferencia cada um de nós. Vocação, do latim VOCATIO, “um chamamento”, de VOCATUS, “pessoa chamada”, de VOCARE, “chamar”, de VOX, “voz, som, chamado, grito, fala” é algo que nos chama desde que nascemos, vem de dentro, nos chama para a realização da nossa missão, que em última instância é ser feliz. Quem convive ou conviveu com crianças pequenas sabe que elas têm suas preferências desde muito cedo. Este chamado que vem de dentro, da essência e aponta para o nosso papel nesse mundo.

A infinita gama de conhecimentos que construímos ao longo de toda a humanidade está a disposição para quem quiser saber, quando e o que quiser saber. Qual é mesmo o motivo para todos aprenderem as mesmas coisas? Quem foi mesmo que escolheu o que é importante todos aprenderem? Por quê? Para quê? Para passar no vestibular? É isso mesmo? O que ou quanto do conteúdo aprendido em pelo menos 11 anos passados na escola realmente fazem diferença na vida das pessoas? Será mesmo que dá para definir o que é importante que TODO MUNDO aprenda? Será que não se está restringindo demais a capacidade de escolha das crianças? Como seria se cada ser pudesse escolher o que vai aprender e quando vai aprender? Se cada ser só aprendesse o que é do seu interesse, o que lhe chama? Como seria o momento de escolher sua profissão? Como seria prestar o vestibular? Será que precisaria prestar o vestibular? Será que seu coração caberia e se enquadraria nessa gama de profissões que conhecemos? Será que teríamos que começar a inventar novas profissões?

Uma vez um amigo me disse: “São muitos corações para tão poucas profissões, temos que inventá-las”. Cada um deveria inventar sua profissão porque cada um tem um coração tão único… O fato é que a verdade de cada um, o que cada um tem de mais único e precioso para contribuir para a evolução dos seres humanos e do nosso planeta, não cabe na escola que conhecemos hoje.

A educação deve valorizar o que cada ser tem de único e protegê-lo para que cresça em contato com sua essência, para que não se distancie dela em busca de um reconhecimento pelo que é e que não recebeu, para que continue em contato com suas preferências, suas missões.

A função da educação deve ser a de dar condições para as crianças trilharem o seu próprio caminho, preparando espaços que possibilitem o desenvolvimento de suas capacidades sensoriais, motrizes e emocionais nas várias etapas de seu crescimento. É como Margarita diz:

“No Reino Vegetal, qualquer semente que é plantada e cuidada adequadamente cumpre perfeitamente seu propósito interno. No tempo certo, nascem suas raízes, caule, folhas, flores e frutos, cumprindo um planejamento interior próprio, ou seja, cumpre com êxito seu destino.

Da mesma maneira, o ser humano é uma semente individual que ao crescer respeitada em seu processo de desenvolvimento, que implica movimentos livres dentro de espaços preparados, respeito a suas necessidades sensoriais e tomada de decisões, cumpre seu planejamento interno com satisfação e alegria como indivíduo e espécie. Sem medo de castigos ou recompensas, todas suas potencialidades são reveladas com valores éticos e morais verdadeiros.” (Margarita Valência –http://barromolhadoblog.wordpress.com/)

Sua essência é preservada e seu potencial único, enquanto indivíduo é realizado. Assim, não faz mais sentido ter competição porque cada um se auto-realiza, realiza sua essência, o que tem de mais único e não faz mais sentido querer trilhar o caminho do outro ou ocupar um lugar que não é seu. Deste ponto de vista, só faz sentido a cooperação em que cada ser realiza sua parte e todos juntos formam um. Cada um traz para o todo o que lhe é único, o que tem de melhor e mais profundo. A humanidade evolui junta e vencer é não deixar vencidos.

Daí a importância de se criar espaços em que as crianças estejam livres das expectativas externas; que estejam livres de ter que corresponder ao que se espera delas; que estejam livres de julgamentos e rótulos; que estejam livres de ter que aprender o que dizem que é importante que aprendam; que tenham espaço para trazer suas perguntas e irem atrás de conhecimentos que lhe são importantes e que lhe fazem sentido. Um espaço em que a aprendizagem se proponha de dentro para fora segundo as necessidades que vão surgindo. Um lugar vivo, de criação, que cria tudo o tempo todo.

Não há verdades absolutas, tem pilares e valores. Nosso grande propósito é sermos felizes!”

Fernanda Giorgi Barsotti

Comunidade de Aprendizagem

barromolhadoblog.wordpress.com