AUTISMO: CONTROVÉRSIAS NA PSICANÁLISE

 

autismo11

 

Discute-se introdutoriamente a polêmica diferenciação entre autismo e psicose infantil no interior do referencial psicanalítico lacaniano. Este campo teórico se divide no tocante à defesa da inclusão estrutural do autismo como uma psicose.

O que queremos dizer ao denominar uma criança de autista? O que a faz diferente das outras crianças? Há motivos para dizer psicose e autismo ou, relativamente à estrutura, são equivalentes? Enfim, como definir a psicose e o autismo na infância?

É preciso iniciar afirmando que não são respostas fáceis, visto que discorrer sobre este tema implica se deparar com um contexto fortemente polêmico. A situação chega ao ponto que muitas vezes é difícil acreditar que os pesquisadores falem das mesmas crianças, principalmente no tocante às autistas (Kupfer, 1999; Stefan, 1998). Ainda se mantém vivo o histórico debate acerca da etiologia psicogênica ou organogênica, a despeito das tentativas de superá-lo, bem como há divergências acerca da definição e do diagnóstico, repartindo o campo entre psiquiatras, neurologistas, psicólogos e psicanalistas, para citar somente estes.

Todavia, mesmo se reportando somente à psicanálise, tampouco obteremos uniformidade. Encontraremos aqui tantas definições, quantas leituras da invenção freudiana (Tendlarz, 1996; Volnovich, 1993). Sendo mais específica ainda, entre os psicanalistas lacanianos (da qual me encontro) – o que implica partir da concepção estrutural da subjetividade – constatamos quanto está distante o consenso sobre o diagnóstico diferencial entre psicose infantil e autismo. Tendo como fundamento a mesma teoria, estes autores chegam a conclusões variadas que, tomando como eixo o debate sobre a estrutura, podem ser esquematizadas basicamente em três posições: os defensores da unidade estrutural; os que apontam o autismo como uma estrutura subjetiva diferente e os que o definem como uma a-estrutura.

Compelidos pelos conceitos e modelos da teoria lacaniana, os psicanalistas acabam por conceber qualquer anterioridade em relação à psicose nos limites do humano, expressos geralmente nos mitos de origem. Talvez, por isso, de um lado, recorra-se a tentativas de situar o autista no limiar da subjetivação (sujeito inconstituído, em constituição…); ou mesmo, afirme-se a inexistência de qualquer possibilidade de sujeito, reduzindo-o a não ser mais que um vivo; assim como, proponha-se a inexistência de Outro. Mas, de outro lado, as mesmas crianças são descritas como evitando, desviando-se de sinais da presença do Outro – no que se pode ver patentemente na surdez específica à voz humana que muitas delas apresentam –, bem como se valendo de um mecanismo psíquico de evitamento, elisão, ou de exclusão. Ora, mas isto não implica que ao menos há algo aí, o que já é ser diferente de nada? Mas, também afirmar que o autista mantém-se no tempo anteprimeiro da constituição, não é descartar a hipótese de que haja ali uma outra subjetivação? Já não há nestas características um claro indicativo de que o Outro se constituiu? Se não, por que fazer excluir o Outro ou, quiçá, se fazer excluir? Portanto, apesar de certas descrições apontarem para um fora da linguagem, pela inexistência de um Outro, as descrições clínicas não são condizentes com um fora do humano.

Possivelmente, o enorme desafio que aí se apresenta, deva-se à confluência de duas dificuldades: as que são próprias à subjetivação das crianças autistas e as postas pelos limites teóricos. O desdobramento desta hipótese nos levaria a questionar a possibilidade de se colocar o autismo no cerne dos mitos de origem ou se seria mais producente estender a ficção teórica, situando o autismo um pouco após a Origem, como, afinal, fez Lacan (1955-56) para abordar a psicose. Assim, talvez se arrefeça o fascínio turvejante que suscita o tema da origem.

capa

São várias as teorias que tentam explicar o autismo, mas as pesquisas não conseguem elucidar o mundo autístico nem a “cura” para o transtorno. É evidente que a criança se constitui, primeiramente, por meio das relações familiares. Muitos estudiosos afirmam que o autismo não tem cura, mas a psicanálise lacaniana acredita nas chances de cura, que depende da maneira como os sintomas são analisados. Do ponto de vista psicanalítico, enquanto a origem do autismo não for desvendada através da terapia, ela se sustentará.

http://www.portaleducacao.com.br/psicologia/artigos/40569/o-autismo-na-visao-psicanalitica

 

     Rosana Rossato

10714617_820098178040804_1649529288_n