DICAS AOS PROFESSORES: COMO ENSINAR ALUNOS ASPERGERS

 

Introdução e Adaptação

 

Começa o Ano Letivo e a criança autista conseguiu ser matriculada numa escola regular, seja estadual, municipal ou particular. Se, no entanto, esta criança antes esteve numa escola pública e não está se adaptando, se recusando a fazer as atividades… E agora, Professor(a)?

A resposta, caro(a) Mestre(a), é que o problema de seu aluno certamente se iniciou por ele ter sido forçado a mudar de escola e de rotina repentinamente, sem um período de preparação e adaptação. Todo Asperger e Autista, antes de ser introduzido(a) no sistema escolar, ou numa nova escola, deve passar primeiro por um processo de preparação psicológica que será tão mais longo e complexo quanto maior for o comprometimento do caso. As mudanças de rotina nunca devem ser repentinas e impostas, mas sempre propostas, com um trabalho de convencimento de certo prazo, ou seja, tudo isto deve ser planejado com antecedência. Ok, mas nem sempre isto é possível, e aí, o que acontece?

Quando um Asperger muda de rotina e de ambiente contra a vontade e/ou repentinamente, primeiro vem a fase da melancolia, tristeza, depois vem a fase da depressão, e depois a fase da raiva, revolta. A quarta fase é a que ele finalmente resolve recorrer ao Mundo Interno de Fantasia dele e lá descobre novas soluções e se dá conta de que um ambiente novo é um ambiente cheio de novidades a explorar, e aí ele volta a sua alegria de sempre.

Reiterando o que disse antes, ele(ela) precisaria ter passado por um período relativamente longo de preparação psicológica e a introdução dele no novo ambiente deveria ter sido gradual.

Bom, mas não aconteceu nada disto e ele(ela) agora está meio perdido(a), sentindo falta do ambiente antigo, dos alunos e professores antigos. E, quando você professora percebe, ele(ela) já está na fase da revolta…

O que eu poderia sugerir é primeiro você pesquisar como era a escola antiga, como eram os professores antigos, se possível, conversar com eles, descobrir como era a rotina antiga dele, seja através de entrevistas com professores, alunos e pais dele.

A partir daí, você deve, numa primeira fase, procurar tornar o novo ambiente, na medida do possível, o mais parecido que for possível com o antigo, e as rotinas e modos de ensinar parecidos também.

Depois que ele estiver bem acostumado, vá introduzindo as novidades aos poucos, sempre preparando-o psicologicamente para elas.

Lembre-se que Aspergers detestam frases impositivas tipo: “você tem que fazer isto, você precisa fazer aquilo, você vai fazer aquilo outro”, “faça já”, etc. Aspergers não gostam de ordens…

Como tudo para um(a) Asperger deve ser sempre espontâneo, o melhor é atuar com sugestões e propostas: “olha, o que você acha de a gente fazer isto?” “Você não gostaria de fazer aquilo?” “Que tal fazer aquilo outro?”, sempre sorridente e simpática(o), sem nunca perder a paciência. Se houver recusa, tente, com argumentos lógicos, mas delicados, tornar a atividade atraente para ele, tentando convencê-lo de que é algo legal a se fazer. Mas atenção: não fique insistindo muito, pois isto é altamente irritante para eles(elas)! Se não quiser mesmo, ofereça outra atividade relacionada, então.

Devo também lembrar que a empatia do aluno com o(a) professor(a) é fundamental. Se ele(ela)  “não for com a sua cara”, e te achar chato(a), irritante, ele não vai obedecer a nada, resistirá a tudo e não vai querer ir mais na aula, evitando-a por causa do(da) professor(a) com a qual antipatizou. Por isto evite muitas cobranças, ou ficar pegando muito no pé, e evite tudo o que possa antipatizá-lo(a) perante ele.

Ele(a) precisa vê-lo(a) como um(a) amigo(a) bonzinho(a), legal e divertido(a), por isto a simpatia precisa ser sempre reforçada, mais que com os alunos! Pois se ele antipatizar com você, caro(a) Professor(a), aí, acabou! Nada do que você fizer vai agradá-lo(a) e não vai querer fazer mais nada.

Trabalhos em Grupos

Não exija que trabalhe em equipe ou faça parte de grupos logo de cara.Observe quais os alunos com quem ele(ela) se dá melhor e os incentive a reforçar os laços de amizade com ele(ela).Prepare-o psicologicamente para trabalhar em grupos, fazendo trabalhos conjuntos entre você e ele(ela) primeiro

Ele(a) vendo você fazer uma parte, e ele fazendo outra do trabalho, e você elogiando o trabalho dele(dela), ele(ela) gostará de se sentir útil para as pessoas, e poderá estar pronto(a) para trabalhar em equipe, especialmente com os alunos mais chegados a ele(ela), que ele (ela)simpatizou mais.Se ele(ela) antipatizou com algum aluno, jamais ponha este aluno no mesmo grupo.

Mas lembre-se também que muitos(as) Aspergers gostam de fazer as coisas do jeito deles(as), e quando estão em grupo, tem tendência a querer “mandar” nos outros alunos, querendo ensinar aos outros o jeito dele(a) e exigindo que todos façam do jeito dele(dela).Como os outros dificilmente aceitam estas imposições, ou também por que muitas vezes este jeito de fazer as coisas dele(dela) é complexo demais para o nível dos outros alunos, que não conseguem entender o que fazer nem como isto pode resultar em brigas feias e o(a) Asperger se antipatizar com o grupo inteiro, e por consequência a antipatia ser mútua e ocorrer do grupo  o(a) rejeitar. Acontece muito!

O que pode levá-lo(a) à frustração, depressão e revolta, porque ele(ela) quer que todos o obedeçam, pois o jeito dele(a) fazer é o único que conhece, e é o único que considera correto, então, para ele(a), passa a ser um assunto de auto estima e ego ter o jeito que ele(a) faz as coisas reconhecido como correto, pois precisa do reconhecimento  das outras crianças e passar a ser imitado(a) para que não desenvolva um complexo de inferioridade, e se as outras crianças pensam ou fazem diferente do que ele(a) quer, isto machuca seu orgulho próprio, sua vaidade pessoal, sua auto imagem, e a rejeição se torna ainda mais traumática, porque na mente da criança Asperger, no Mundo Interno de Fantasia dela, ela é sempre popular, reconhecida e imitada e dá as cartas, e quando não há esta correspondência no Mundo Real, o choque traumático ocorre, muitas vezes de intensidade dramática. Este costuma ser o motivo mais comum de falta de sociabilidade de Aspergers Imaturos. Não se trata, como muitos pensam, de falta de empatia pessoal, e sim de imposição de empatia à força por parte do(a) Asperger sobre os outros.

Por isto, inclusive, é complicado querer reunir vários(as) Aspies Imaturos num grupo e querer que trabalhem em equipe. Cada um(a) vai querer se impor ao outro com o seu próprio jeito de fazer as coisas e seu interesse, e aí a briga é certa !

Eles(as) podem se rejeitar mutuamente, até mais do que um(a) Aspie no meio de neurotípicos(as), por conta de suas convicções muito fortes  , carência e dependência emocional, a necessidade de aprovação e orgulho,sem falar na persistência, Aspies não se rendem nunca e tantos egos fortes juntos podem travar uma verdadeira guerra, pois nenhum deles(as) irá querer ceder.

Claro que com o tempo e o passar do Processo de Amadurecimento Asperger, a criança descobre e aprende a ter independência emocional, sem sentir mais aquela necessidade imperiosa de aprovação pública que o(a) Asperger  exige de si mesmo(a) quando Imaturo(a). Olhe aí o Juiz Interior atuando de novo !

Tente nunca desvalorizar o jeito dele que ele inventar para fazer as coisas, mas mostrar para ele que existem outras maneiras interessantes e divertidas de fazer a mesma coisa também. Recomendaria também propor o jeito dele(a) para os alunos neurotípicos, pois se eles toparem, isto irá fazer muito bem ao ego da criança

Asperger, que se sentirá valorizada e reconhecida. Mas se não toparem, tudo bem, ao menos foi tentado, e a criança Aspie reconhecerá seu esforço em agradá-la e defendê-la, e é provável que ela o(a) agradeça depois por isto.

Caso a criança Asperger estiver sem medicação há algum tempo e por isto tenha históricos de episódios agressivos, a delicadeza no tratar e na proposição de tarefas deve ser redobrada, e a insistência ainda menor.

Matéria X Interesse

Procure também, na medida do possível, relacionar toda a matéria com os assuntos que a criança Asperger tem paixão, inclusive nos exercícios e provas. Muitas vezes nem precisa incluir dinossauros, carros, aviões, trens, etc, nas questões de todos, mas quando for a vez de o(a) Asperger responder a um questionário falado em voz alta, incluir os assuntos preferidos dele(a), assim se sentirá mais estimulado(a) e responderá com prazer.

Estimule a criatividade das crianças nunca aceitando respostas prontas, iguais e decoradas dos livros didáticos, e sim a interpretação pessoal de cada um(a), algo que faz bem para todos(as) os(as) alunos(as), não só o Aspie. Em matérias que permitam, como Ciências, faça demonstrações ao vivo dos fenômenos científicos, isto acende o interesse do(a) Aspie pela matéria, e inclusive é boa idéia chamá-lo(a) para participar da experiência  na prática, ele(ela) ficará fascinado(a) e ficará ansioso(a) por novas demonstrações!

Sabe aquele(a) Aspie que fica no fundo da classe, isolado(a) o tempo todo, desenhando ou escrevendo estórias o tempo todo, sem participar da aula?

Bom, aí é algo mais complexo! Muitas vezes está assim porque a rejeição dos colegas ou a antipatia pelo(a) professor(a) já aconteceu. E é difícil eliminar o rancor da noite para o dia. O caminho para isto é, em primeiro lugar, ver/ler e elogiar o que ele desenha e escreve, e procurar mais tarde interpretar o simbolismo das estórias e dos desenhos para ter uma idéia do que está acontecendo com ele(a). Depois, vá propondo exercícios e matérias só para eles, relacionadas ao assunto de preferência dele, enquanto investiga junto a outros alunos se houve alguma briga ou desentendimento, e porque eles não o procuram. Uma vez que ele estiver acompanhando mais a matéria, proponha, aos poucos, que vá se sentando cada vez mais à frente, mas sem insistir muito, até estar mais integrado. Incentive a pedir ajuda a outros alunos quando tiver dúvidas na matéria, para fazer com que volte a se relacionar com os outros. Procure mostrar que não saber não é nenhuma vergonha e que ninguém vai ficar bravo(a) se ele(a) pedir ajuda, e que o motivo dele(a) estar na escola é para errar e aprender com o erro e que com todo mundo é assim, e que todos erram na vida, inclusive ele. Comemore publicamente cada boa nota que ele(a) tirar, mas não revele publicamente se a nota não for boa. Diga sempre que confia nele(a), que é capaz, e que tem orgulho dele(a), reforçando assim o seu ego e combatendo o complexo de inferioridade.

Reforçando Laços e Confiança

E lembre-se de que o trabalho de Professor não se restringe à sala de aula: na hora do recreio, sempre que puder, seja amigo(a) dele(a) no intervalo, conversando descontraidamente, e escute o que ele(a) te conta sobre a vida dele(a) extra classe, pois muitas vezes é fora da classe que ocorrem episódios de bullying ou problemas familiares, e o aconselhamento fará com que a criança reforce a simpatia e confiança em você e se torne mais boazinha e obediente. Aliás, isto vale tanto para Aspies como para Neurotípicos.

É muito comum também o (a) Aspie ficar saindo da classe no meio da aula, sem pedir licença, em silêncio e ficar a aula inteira no pátio, passeando ou brincando, imersa em seus momentos de abstração e introspecção. Isto geralmente ocorre porque ou a matéria é, ou está chata para ele(a), desinteressante e por isto está enfadado(a).

Nestas horas, ser amigo(a) do aluno nas horas do recreio vale ouro: aproveite para investigar porque está fazendo isto, e procure saber com o que, na opinião dele(a) poderia ser feito para que a matéria e a aula sejam mais interessantes para ele. Aliás, a antipatia, desinteresse ou mesmo chatice de uma aula normalmente é o motivo para o (a) Aspie ir para o fundo da classe desenhar ou escrever. Então, para que ele não se isole, nem saia da classe, é muito importante combater a antipatia dele pela matéria, tornando-a o mais atraente possível. Se ele(a) estiver interessado(a) e estiver realmente gostando da matéria, e simpatizar com o (a) professor(a) e demais alunos(as), ele não se isolará, nem passeará, rsss!

Com todas estas dicas, a matéria ficará mais atraente para eles e terão prazer em estudar, ok?

  Cristiano Camargo

escritor