AS DIFERENÇAS ENTRE COMO OS TERAPEUTAS E OS AUTISTAS MADUROS INTERPRETAM CERTOS COMPORTAMENTOS AUTÍSTICOS

AS DIFERENÇAS ENTRE COMO OS TERAPEUTAS E OS AUTISTAS MADUROS INTERPRETAM CERTOS COMPORTAMENTOS AUTÍSTICOS

Na análise do Autismo do ponto de vista comportamental, existem grandes diferenças na maneira em como a Ciência vê e interpreta os comportamentos autísticos, observando o autista apenas do lado de fora, em suas manifestações, e na maneira com que os Autistas Maduros, como o escriba que aqui vos fala, veem e interpretam estes mesmos comportamentos autísticos.

Assim, gostaria de expressar aqui a minha visão sobre este assunto, haja vista que, de acordo com o que já vivi e vivo como autista e de acordo com minha experiência no lidar com autistas severos na AMA, existem em algumas postagens em grupos do facebook, em geral, que não coincidem com o como eu vejo este assunto, das diferentes abordagens às interpretações das manifestações comportamentais autísticas.

Devo, no entanto, deixar claro que as interpretações que eu coloco aqui não devem ser tomadas como tentativas de impor verdades absolutas, ou criticar outras abordagens e interpretações que não as minhas, aqui são apenas propostas com o objetivo de reflexão por parte dos terapeutas, para que estes possam tomar conhecimentos de novas e diferentes abordagens e interpretação, e com seus botões julgar se acham procedentes ou não, não sendo necessárias que eles exponham nas respostas a este tópico suas conclusões, só se eles quiserem ou julgar conveniente, mas não existem quaisquer obrigações neste sentido, claro. O objetivo deste texto é mostrar que, além da abordagem clínica-científica, existem outras abordagens possíveis e que podem ser (ou não) cientificamente válidas, mas que de qualquer modo valem a pena refletir sob elas e, por um breve lapso de tempo, experimentar mudar um pouco o foco para variar.

Por exemplo, certos comportamentos autísticos podem parecer a alguns terapeutas uma desorganização/distração e esquecimento, ou ainda, não compreensão das expectativas/ reação ao novo/stress/ tentativa de autorregulação sensorial ou aumento de ansiedade; são todas abordagens e interpretações possíveis e comuns do ponto de vista clínico.

A meu ver, no entanto, não interpreto como não compreensão das expectativas, nem reação ao novo/stress, nem tentativa de autorregulação sensorial / aumento de ansiedade, ou desorganização, mas sim como tendo a ver com o principal componente da mente autística, que é o Mundo Interno de Fantasia (MIF).

Então vamos falar primeiro da questão da desorganização: organização é algo relativo – o que está perfeitamente organizado para uns está bagunçado para outros, é Pirandello com a diversidade humana de pontos de vista. O fato é que se trata não de uma desorganização, mas uma organização diferente da que as pessoas estão acostumadas, fora dos padrões. O que é chamado de desorganização na verdade, para o autista é uma organização perfeita: pode parecer tudo bagunçado, mas o autista sabe exatamente onde cada objeto está e se os pais arrumarem do jeito deles e organizarem (do ponto de vista deles), o autista ficará perdido, e nervoso, por que está tudo imprevisível e fora do esquema que ELE bolou e as coisas já não estão do jeito que ele quer, e ao ver dele, as coisas TEM que estar do jeito que ele quer. Tanto que, se você guardar um objeto num lugar que não tem nada a ver com os locais de costume dele, ele não fará uma busca sistemática e detalhada pela casa, e sim, procurará automaticamente apenas nos locais onde ELE costuma guardar.

E ficará indo de um lugar que ele costuma guardar para outro, indo e voltando várias vezes e ficando irritado, porque ele acha que as coisas TEM que estar de qualquer jeito onde ele costuma guardar, e acha que os pais tem obrigação de saber onde ele costuma guardar (afinal eles veem onde ele guarda todo santo dia). Aos pais, e terapeutas, isto pareceria TOC, ou algo repetitivo, mecânico, mas não é: na mente dele é inaceitável que algo esteja em um lugar diferente do que ele os deixou, pois os objetos como bons personagens de seu MIF, lhe obedecem! Só depois que ele vê que não tem jeito, que os objetos não estão onde ele costuma deixar, que, inconformado e com raiva dos pais ou empregada que mexeram nas sagradas coisas dele e na sagrada organização das coisas dele, que ele fará uma minuciosa busca pela casa toda, até nos lugares que (segundo ele) seriam os mais improváveis possíveis. Ao encontrar, ele vai recolocar, mesmo contra a vontade dos pais, o objeto em um dos lugares onde costuma colocar sempre. Resistência a mudanças? Não! Como ele gosta de previsibilidade, ele se sente muito mais seguro colocando as coisas e as organizando como gosta, onde gosta, por que tem certeza absoluta que sempre encontrará o objeto ali. Por isto, uma empregada que cada vez que vem, organiza as coisas da cabeça dela, cada semana de um jeito diferente, é um terror para ele, pois aí ele nunca sabe onde os objetos estão e vem uma enorme insegurança. Porque se tornou imprevisível, e se imprevisível, se tornou hostil e inseguro, e se não conseguiu achar, ELE falhou. Se a Mãe ou a empregada acharem para ele, Ele falhou, porque era para ELE achar, não a mãe, a empregada, ou quem seja, ele tem a obrigação de achar, mesmo que a culpa de não ter achado não seja dele, ele não se perdoa e pode se punir. Se os pais dão bronca, falam que está uma bagunça e mandam ele arrumar do jeito DELES, na organização DELES, ele se sente desrespeitado, incompreendido na sua necessidade premente de ter sua liberdade de organizar do jeito dele e de organizar de um jeito que ele (muitas vezes só ele mesmo) acha tudo, e assim, por consequência se sente rejeitado, desamado, injustiçado. Se sobrevém a insistência materna/paterna de impor a organização do jeito DELES, é a receita certa e infalível para um meltdown e uma explosão de fúria, sobretudo se esta insistência se dá todo santo dia e estes sentimentos dele vão se acumulando- é muita pressão externa em cima dele! E ela não aceita a maneira de organizar dos pais por que seja incapaz de compreender ou de aceitar, por seja limitado, mas porque do ponto de vista dele, ele está certo, não os pais, o jeito de organizar dele é o certo, não o dos pais, ele já elegeu seu padrão e quer que os pais entendam que o único jeito de ele ter 100% de certeza que sempre achará tudo é o DELE. Mas tem mais: ele, ao contrário dos pais, vê uma beleza, uma harmonia perfeita, uma estética divina no jeito que ele organiza, e qualquer outra maneira será feia porque não é a DELE. É meio que certo narcisismo de se admirar dele mesmo, do que ele faz e achar que tudo o que ele faz é perfeito, porque ele acha que ele não pode se dar ao luxo de errar, ele cobra perfeição de si (Juiz Interior) e exige perfeição dos outros e cumprimento pelos outros de sua própria “perfeição” (Ditador Interior). Então, ou ele se acha o máximo, ou ele se acha o mínimo. Se ele é bem sucedido, ele se acha o máximo, se ele falha, ele se acha o mínimo, de qualquer modo (parêntese para o humor aspie aqui, muito irônico) ele se acha – e não se perde ! KKKKKK…

E porque não seria distração/esquecimento? Vamos voltar ao MIF? Bom, autistas tem uma capacidade de concentração mental fenomenal, tanto que constroem MIF´s super ultra sofisticados e tem um raciocínio super ultra sofisticado, que trabalha com um volume de informações muitíssimo maior que a mente das outras pessoas costuma utilizar para o mesmo assunto, pois a mente neurotípica é sintética, a mente autística é complexa, no que tange à análise dos assuntos corriqueiros ou não e no modo de organizar e expor pensamentos e raciocínios. Tudo isto demanda uma enorme energia mental, esforço idem e concentração idem, e o resultado é sobrar muito pouco para os eventos exteriores. Como bom burocrata, o autista hierarquiza e organiza os assuntos em ordem de importância (pra ele, que geralmente é diferente da dos outros), assim, enquanto para os outros os assuntos exteriores (da realidade, do dia a dia, corriqueiros) são os mais importantes, para os autistas estes assuntos estão lá atrás, no fim da lista de prioridades. Quem está nos primeiros lugares? Os assuntos internos do MIF dele e os assuntos de interesse dele, claro! Então para ele, terminar o download do episódio de anime que ele demorou semanas para conseguir encontrar na internet é muito mais importante do que ir colocar o lixo para fora, por exemplo.

E ele está tão concentrado, mas tão concentrado nesta tarefa de terminar o download que ele escuta, mas nem presta atenção (não sobra atenção, está toda concentrada em outra coisa). Pedidos insistentes, gritos, ou pior ainda, desligamento do computador, são outra receita infalível de como fazer um autista surtar feio…rsss…melhor nem pedir, a pessoa mesma fazer, porque ele terá a pior má vontade, autistas detestam tudo que é imposto e que não entendam o que ele quer e pensa. Por isto que ele aceita muito bem as mudanças de rotinas que ele mesmo implementa, e não aceita as que são impostas a ele contra a vontade dele. E não é incapacidade de entender a importância de colocar o lixo para fora, é que ele já hierarquizou e decretou para si mesmo que colocar o lixo para fora está no lugar 20.561 da lista de prioridades dele. Se você quiser convencê-lo a subir o item “colocar o lixo para fora” mais alto na lista de prioridade, prepare-se para uma batalha lógica: ele exigirá argumentos lógicos e complexos que o convençam por A+B que o lixo é mais importante que o querido, amado, idolatrado salve salve download dele – boa sorte! Rsss…pois para o lixo ele dará mil razões perfeitamente lógicas para não ser considerado importante e para te explicar como o download dele é importante, ele te dará dez mil explicações mais lógicas ainda …rssss…autismo, enfim é a vaidade, amor próprio e orgulho do ego elevado à milésima potência… rsss…especialmente as duas primeiras partes em si do que eu já disse aqui já excluem possibilidade de auto regulação sensorial e aumento da ansiedade (a segunda aliás pode ser decorrência, consequência do que já disse acima, ou seja, do lidar inadequado com o Autista). Autista imaturo!

Quanto ao que for visto como resistência a mudanças, preferência por rotinas e ações repetitivas na verdade serem tentar manter previsibilidade e ordem, não sabe como atender expectativas e falta de perspectivas diferentes, apenas o primeiro item, a meu ver, está correto. Vejam que, quando se fala em “atender expectativas” isto significa atender expectativas dos outros, não as dele, e como se sabe, as dele para ele são muito mais importantes que as dos outros, que estão láaa embaixo na lista de prioridades mental. Porém, há um fator complicador ali, a imprevisibilidade e a “ferocidade” dos pais e/ou professores, que, na visão dele, teimam em insistir nas prioridades erradas (do ponto de vista dele), criando, eles próprios, expectativas diferentes das dele, que ele não está interessado em cumprir, mas com medo das reações deles, se vê obrigado, contra a vontade, reclassificar e colocar as prioridades deles. No momento em que ele deixa de querer atender suas próprias prioridades e corresponder  as suas próprias expectativas e prioridades para atender e corresponder as dos outros, há uma queda de rendimento e eficiência, porque nas dele ele está seguro de si que consegue, nas dos outros, desconhecidas, onde ele é inexperiente, ele fica inseguro, e se falhar, um desastroso efeito dominó provocado pelo Juiz Interior e Ditador Interior o levará ao fracasso, e como se trata de uma experiência nova, ele não saberá onde e no que errou, o que o levará a novas cobranças interiores, o que , se juntar à cobranças exteriores insistentes, são mais uma maneira de se induzir um autista ao surto. Vejam, senhoras e senhores e senhoritas…rsss, que a segurança de si, a auto confiança e a auto estima do autista está firmemente ancorada na previsibilidade e dependem desta previsibilidade, que é para ele crucial, obrigatória. A previsibilidade é confortável, segura e aconchegante, por isto mesmo, viciante. Não se trata então de falta de novas perspectivas, ele na verdade trabalha com elas no sentido de que está sempre planejando ações futuras ou pensando no futuro, mas é para ele condição sine qua non que estas novas perspectivas sejam previsíveis, e que ele possa prevê-las, deduzi-las, planejá-las, ou seja, tudo tem de estar no organograma e no fluxograma.

Quanto à impulsividade/ indisciplina / não seguir instruções /dificuldade de entender os conceitos ou atraso no processamento: Por seu raciocínio extraordinário e complexo, sofisticado, não há por parte do autista, em minha opinião, dificuldade alguma em entender os conceitos. Eles são entendidos, mas muitos, para o autista, são simplesmente chatos/desinteressantes e/ou estão nos últimos lugares da terrível lista de prioridades dele (terrível para os neurotípicos, só para os neurotípicos, parafraseando aquela propaganda antiga de inseticida…rsss). E não há atraso no processamento, porque , ao contrário, o processamento autista é muito mais veloz  que o normalmente empregado pelas outras pessoas em situações corriqueiras. Só que lida com uma massa de informação muito maior e mais densa, e com isto, leva naturalmente muito mais tempo. Se um neurotípico comum fosse, para um assunto simples, usar toda esta massa de informação que autista usa para o mesmo assunto, demoraria muito, mas muito mais para conseguir processar, se conseguir. Só que, como eu disse antes, a mente neurotípica é sintética, então não usa a árvore hierárquica complexa de prioridades de análise do autista, então seu raciocínio mais simples consegue ser mais rápido (mas em muitos casos muito menos preciso e mais sujeito a falhas). Então, como eu sempre digo: não há atrasos, e sim, tipos de processamento de informações diferentes, existem mais de uma forma correta de processar, pensar e raciocinar. Se não é nada disto, então o que seria? Minha sugestão é a de que o autista, como dito anteriormente, não gosta de nada imposto, e a ideia de que alguém possa ser mais “perfeito” que ele e saber mais que ele , ou estar hierarquicamente acima dele é fonte geradora de frustração, desilusão, depressão, culpa e fracasso, além de ansiedade, resumindo: complexo de inferioridade.

Ele gostaria de ele mandar, ele instruir, não de receber ordens. Receber ordens ou instruções para ele é visto como um humilhação e reconhecer a autoridade dos outros significa para ele reconhecer seu fracasso como autoridade sobre os outros, portanto, da sua suposta e pretendida “perfeição”.

Alerta vermelho alerta vermelho! Soa a sirene na mente autista, sua autoestima, segurança de si, e autoconfiança, além de amor próprio, estão em perigo! Por isto sempre digo: não mande, sugira, dê opções a escolher, peça a opinião dele, deixe-o discutir a ordem – se você conseguir dar a explicação lógica e complexa completa o suficiente (e não parecer uma ordem), ele a aceitará numa boa.

No tocante a não olhar nos olhos, evitar sons e luzes e cheirar e girar objetos ser na verdade uma desordem sensorial, na modesta opinião do autista que vos fala, não é bem assim: a questão de olhar nos olhos é uma questão de natureza basicamente neurológica, que com auto treinamento constante e sistemático, pode ser superada. Porém, se pai ou mãe tiverem um comportamento e um olhar por demais autoritário e severo, o comportamento de não olhar nos olhos recrudesce devido a traumas psicológicos e medo.

Certos olhares dos pais podem ser por demais esmagadores, opressores para o autista e muitas vezes os pais nem se dão conta.

Já no tocante a sons e luzes, como já disse antes, o autista gosta de ficar no seu MIF e isto exige dele uma enorme concentração e energia mental. Então, se sons e luzes o atrapalha e desconcentra, ele se irritará e lhe parecerão extremamente desagradáveis. Certos sons e luzes (como o barulho do motorzinho do dentista, a luz na cara do consultório do dentista, ou do motor de caminhão com cara brava) podem estar relacionados, ao se evitá-los, a traumas psicológicos, pois ele os relaciona a dor, sofrimento ou vilões de seu MIF. Cheirar objetos a mim parece mais uma questão de pura curiosidade mesmo. Mas girar objetos é mais complexo: acredito que o autista vê no objeto que gira uma beleza, uma harmonia e um encadeamento lógico de movimentos, um levando ao outro infinitamente, que o fascina, maravilha, e de certa forma, vicia, pois quanto mais ele se fascina com aquilo, mais quer tentar observar novos e novos detalhes e sorver s delícias de ver refletida no objeto que gira sua própria harmonia interna, de seu MIF.

Uffa… cansaram, gente?

Desculpem pelo artigo tão longo, mas o assunto era complexo demais para ser abordado sintética ou superficialmente!

Obrigado pela atenção e paciência de vocês!

 

   Cristiano Camargo

escritor