MOISÉS_ O INTERNO DIFERENTE

moises

No ano de 1943, quando Moisés completou sete anos de idade, seus pais estavam pesquisando um bom colégio interno para matricular o filho. O menino não tinha muito afeto aos pais, aos avós, nem mesmo gostava de brincar com as crianças da mesma idade. Então seus pais começaram a pesquisar uma maneira de alfabetizá-lo e adaptá-lo à nova vida.

Moisés foi matriculado no primeiro colégio interno que também tinha faculdade interna para quem desejasse estudar até a graduação. Foi então que seus  pais conseguiram uma rotina para que o processo de adaptação ao novo lar fosse menos traumática possível, tanto dentro das regras do colégio quanto à sua rotina.

Moisés ao estudar em seu colégio interno teve que dividir seu quarto com mais dois amigos, José Felipe e Davi. A rotina tinha que ser atendida por Moisés e sua amizade com Davi e José Felipe tornou-se forte.

O ano de 1946 foi uma época desafiadora para Moisés. Ele tinha pouco contato visual com os colegas de quarto, brincavam em alguns momentos e de tanto se adaptar  dentro do colégio a saudade da família começou a desaparecer. Isto porque Davi e José Felipe eram tratados como irmãos de Moisés e o afeto ficou cada vez mais forte.

Nas aulas de música Moisés de destacava, embora apresentasse enorme medo no pátio do colégio. Os outros internos se informavam da fama de Moisés e organizaram uma festa para ele. Alguns internos estavam um pouco abalados e tristes, pois eram novatos e tinham saudades dos seus pais. Alguns eram órfãos e seus parentes ao invés de colocá-los em um orfanato bem próximo ou cuidar dos sobrinhos, também decidiram pagar o internato.

Moisés, Davi e José Felipe, decidiram ficar no internato até completarem 30 anos de idade, onde pelo menos 100 internos permaneciam. Moisés conheceu os marmanjos do internato, alguns eram legais com ele e outros davam um enorme trabalho para o diretor da escola.

Dentro do colégio interno Moisés tinha acesso a livros antigos, artigos musicais, bíblias, até mesmo atlas, revistas e jornais. A medida da biblioteca era equivalente a uma mansão e os livros eram organizados por série e grau de escolaridade, desde os infantis, até os universitários.

O colégio interno era tão grande que, durante os momentos de descanso de tanto estudar, Moisés tinha acesso aos universitários de várias áreas. Durante um de seus trabalhos como representante do colégio, Moisés pesquisava os colegas internos universitários que ficavam em lugares restritos do colégio. O pátio do colégio era enorme, o tamanho era equivalente à metade do tamanho de um campo de futebol. José Felipe e Moisés gostavam de estudar Filosofia e Astronomia, já Davi amava livros que contém poemas com grande erudição.

Em 1946, Moisés aos 10 anos, começou a descobrir algo novo. José Felipe encontrou no colégio interno um telescópio e pediu autorização ao diretor para usar o instrumento para pesquisas astronômicas. O diretor teve que ceder desde que as condições do telescópio estivessem impecáveis todas as vezes que fossem devolvidas. E assim aconteceu.

Certo dia, durante os momentos de sempre, os pais de Moisés resolveram visitá-lo. Moisés já não se lembrava mais dos pais após estudar durante três anos sem vê-los. Em diálogo breve, que tinha que ser, Moisés pediu aos pais que o deixasse durante mais 20 anos no colégio pois era a melhor coisa que eles tinham feito por ele.  Moisés levou José Felipe para conhecer seus pais enquanto a visita estava disponível. O regulamento do colégio dizia que quando os internos completassem 14 anos tinham direito de ir para a casa de seus pais somente aos fins de semana e durante as férias.

No ano seguinte, Moisés percebeu que era diferente dos demais meninos que conheceu. Inclusive de muitos marmanjos que estudavam por ali. Ele foi se descobrindo e aventurando com seus amigos e colegas de quarto. O cardápio do colégio era bastante agradável, ele podia se alimentar de verduras, frutas e legumes. Durante esse período, José Felipe e Davi tiveram a última oportunidade de permanecerem juntos, quando os pais de Davi resolveram mudar de cidade por motivos pessoais.

Enquanto isso, Moisés teve os piores momentos de sua vida sem Davi, José Felipe percebeu que em seu quarto havia uma vaga deixada por Davi e a angústia de Moisés era muito forte.

José Felipe era o único que poderia manter fidelidade ao permanecer com Moisés até o dia em que completassem 30 anos. Durante os momentos angustiantes de Moisés o colégio interno mudou de várias formas. Passou a comandar o colégio uma diretora carismática, conservadora, extrovertida como Davi e que tinha um espírito aventureiro como Moisés. Quando Moisés conheceu sua nova diretora, no início, demonstrou grande medo e começou a se balançar para que seus medos desaparecessem chamados de “mania” pelos marmanjos.

Durante alguns dias Moisés percebeu que a nova diretora tinha um rosto semelhante ao de Davi, seu espírito era aventureiro, porém não deixava de ser uma diretora formal e autoritária. E algo chamou a atenção de Moisés, o espirito aventureiro.

José Felipe e Moisés brincavam como sempre nas horas recreativas, quando de repente, houve outra mudança bombástica no colégio. O surgimento do Grêmio Estudantil em 1950. Moisés e José Felipe não sabiam como seria um grêmio em colégios internos nem como funcionaria o esquema.

O melhor aconteceu quando a diretora resolveu modificar algumas regras e alegrar ainda mais os meninos. A gestora resolveu implantar um canto para as meninas estudarem no pátio em horários recreativos e eles poderiam lanchar e brincar juntos, antes da aula de música.

Moisés nunca tinha visto uma menina de perto. Nem mesmo José Felipe. Então Moisés perguntou à Diretora o que e como eram as meninas. A diretora resolveu deixar Moisés e os meninos curiosos. Os marmanjos estudantes de medicina não faziam ideia de poder ver meninas em algum momento dentro do colégio interno. Pra muitos era uma novidade, pra outros, até tinham ideias absurdas de extraterrestres, pois liam alguns livros dinâmicos que relatavam seres estranhos em toaletes e quartos de determinadas escolas.

José Felipe e Moisés nem mesmo se preocupavam com a crença dos marmanjos nem mesmo ouviram a conversa de alguns garotos que criaram mitologias antigas e extraterrestres. Quando as garotas apareceram, matriculadas, Moisés se espantou com a beleza das mulheres. Logo após, as garotas pequenas entraram no pátio da escola surpreendendo os internos que estavam há muito tempo ser poder vê-las.

Em 1950, Moisés e José Felipe se candidataram ao grêmio estudantil. Na época, Moisés conheceu Dulce Maria e Nicole, duas garotas com personalidades diferentes. Elas vieram de outros colégios e quando seus pais souberam da novidade decidiram colocar as garotas por lá. Dulce Maria e Nicole só poderiam interagir com os colegas internos durante o passeio e horários recreativos que durava cerca de uma hora. Era grande o intervalo, maior até que as meninas esperavam, porém era tempo suficiente para lancharem e brincarem à vontade. O grêmio estudantil começou a ser palestrado pela professora conscientizando aos alunos a respeito da democracia e sua importância em colégios por intermédio de grêmios estudantis do gênero.

Após discussão, brigas, castigos e momentos mais perturbadores, Moisés foi eleito o primeiro presidente do grêmio estudantil do colégio interno. Houve uma comemoração calorosa e a diretora se emocionou com o brado de vitória de Moisés e José Felipe. Na época os internos votavam diretamente para presidente e vice e o presidente do grêmio tinha que escolher o tesoureiro, o secretário, as diretrizes e os moderadores do grêmio. Antes da reforma política do país, o presidente do grêmio, além de representar a escola, tinha que nomear seus integrantes durante sua gestão, pois ele era tratado como representante geral da escola.

Quando havia um conselho de classe o presidente que fosse maior de 21 anos tinha que assinar como representante administrativo. Também era seu dever nomear alguns co-representantes para dar notas de higiene em dormitórios, encaminhar o resultado para o Presidente do Grêmio, fazer uma espécie de sanção e encaminhar a sanção das notas para à direção da escola. Detalhe, o único que podia entrar na sala dos diretores era o presidente do grêmio, a não ser que houvesse alguma inflação gravíssima.

Em 1957, quando Moisés completou 21 anos, permaneceu fiel no colégio interno, agora na universidade de Letras, namorava Nicole e tinha maior autonomia, pois já era considerado como um marmanjo, ou príncipe dos internos.

José Felipe continuando sendo seu aliado, agora conhecendo bem a personalidade de Moisés, seus pais e sua namorada, José Felipe manteve sua palavra em permanecer no colégio até que Moisés terminasse suas pesquisas de mestrado aos 30 anos. Finalmente o inesperável aconteceu, Davi voltou para a cidade.

Davi percebeu que tudo havia mudado no colégio interno, já havia mulheres e meninas internas, porém ficavam em lugares restritos para elas moraram.

Mais tarde, quando Davi se reencontrou com Moisés e José Felipe se abraçaram e choraram muito. O reencontro foi emocionante, algo que nunca aconteceu em colégios internos deste gênero.

Os anos foram se passado, os pais de Moisés morreram e ele teve que trabalhar duro para pagar a mensalidade e deixar de ser interno. Como Moisés era sábio, adiou o casamento para quando saísse de vez da vida de interno e passasse a trabalhar como professor de literatura. No entanto, livros clássicos eram bem interessantes e a gramática fiel era tudo para Moisés.

Em 1967, Moisés finalmente sai do colégio interno como Mestre em Literatura. Prometeu casar-se com Nicole e casou, teve filhos e uma linda mansão herdada de seus pais. Tornou-se um homem obcecado por literatura e poemas antigos. Durante esse período começou a conhecer a palavra autismo e investigou nos livros psiquiátricos. Na época, a teoria de Leo Kanner não havia sido publicada, tinha poucas informações a respeito do autismo, até que descobriu um livro que mudou toda a sua vida.

Neste livro era explícita a compreensão quanto as suas estereotipias, a sua timidez, o seu problema com mudanças de rotina, aquele choro de indignação ao se separar de Davi, seu amigo, sua demonstração de introversão em alguns momentos e de demonstrar a falta de afeto com os pais preferindo ficar sozinho durante as brincadeiras de infância.

Quando Nicole e Moisés casaram foi algo novo, embora as rotinas novas não mais o afetassem tanto quanto antigamente. Moisés manteve seu espírito aventureiro, sua fidelidade, adquiriu bons modos, teve boas experiências em seu colégio interno e esses 23 anos de convivência com os colegas fizeram com que amadurecesse de uma forma que nem mesmo Nicole o compreendia, pois não via o mundo como Moisés, mas o aceitava! Assim foram felizes e cúmplices na vida!

Leonardo Ricardo

10602760_800769779973644_294558687_n