O nó do afeto

“Em uma reunião de Pais, numa Escola da Periferia, a Diretora ressaltava o apoio que os pais devem dar aos filhos. Pedia-lhes, também, que se fizessem presentes o máximo de tempo possível.
Ela entendia que, embora a maioria dos pais e mães daquela comunidade trabalhasse fora, deveriam achar um tempinho para se dedicar a entender as crianças.
Mas, a diretora ficou muito surpresa quando um pai se levantou… e explicou, com seu jeito humilde, que ele não tinha tempo de falar com o filho, nem de vê-lo durante a semana. Quando ele saía para trabalhar, era muito cedo e o filho ainda estava dormindo. Quando ele voltava do serviço era muito tarde e o garoto não estava mais acordado. Explicou, ainda, que tinha de trabalhar assim para prover o sustento da família.

Mas, ele contou, também, que isso o deixava angustiado por não ter tempo para o filho e que tentava se redimir indo beijá-lo todas as noites quando chegava em casa. E, para que o filho soubesse da sua presença, ele dava um nó na ponta do lençol que o cobria. Isso acontecia, religiosamente, todas as noites! Quando o filho acordava e via o nó, sabia, através dele, que o pai tinha estado ali e o havia beijado. O nó era o meio de comunicação entre eles.

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A diretora ficou emocionada com aquela história singela e emocionante.
E ficou surpresa quando constatou que o filho desse pai era um dos melhores alunos da escola.

O fato nos faz refletir sobre as muitas maneiras de um pai ou uma mãe se fazerem presentes, de se comunicarem com o filho.
Aquele pai encontrou a sua, simples, mas eficiente. E o mais importante é que o filho percebia, através do nó afetivo, o que o pai estava lhe dizendo.

Por vezes, nos importamos tanto com a forma de dizer as coisas e esquecemos o principal, que é a comunicação através do sentimento. ‘Simples gestos valem muito mais que presentes ou desculpas vazias.’”

Bem, essa história tem a autoria desconhecida, porém posso dizer que ela aconteceu comigo.

Somos quatro filhos. Eu, a mais velha. Levávamos uma vida bem simples.

  Minha mãe não trabalhava fora, todavia posso garantir que em casa… tinha trabalho de sobra! Não possuíamos máquina de lavar roupa, ferro a vapor, “freezer”, TV em cores, nem telefone! A presença dela era em tempo integral: manhã, tarde, noite, madrugadas, finais de semana, feriados e férias também! Confesso aqui que até abusava disso… Ela me acordava de manhã com muita delicadeza (para não assustar…) e dizia: “’Fia’, a mamãe vai comprar o pão, enquanto isso você já vai levantando e se arrumando.” E quando ela voltava… Imaginem? Santa mãe! Paciência de Jó!

Meu pai trabalhava fora. E em dois lugares. Às vezes, três! Era ele quem “enchia as latas” e quatro filhos para alimentar não era fácil, não! Mesmo assim, posso afirmar que era um pai tão presente em nossas vidas quanto minha mãe. E, esse texto do “Nó do afeto” acontecia assim na minha infância:

Meu pai trabalhava de madrugada como porteiro. Quando chegava em casa estávamos dormindo.

 Ele exigia que cada um de nós deixasse os cadernos da escola abertos na lição de casa em cima da mesa da cozinha. Fazia questão de assinar a tarefa e, se tinha alguma dúvida sobre a matéria, mandava bilhetinhos às professoras. Naquele tempo não tinha agenda para se comunicar com a escola… Creio que ele, sem saber, inaugurou a comunicação entre pais e escola por meio da agenda escolar…

E, o meu nozinho na ponta do lençol era uma balinha… Vou fazer a propaganda da marca da bala: era um “Dadinho”! Como já disse, somos quatro irmãos, portanto ele deixava quatro “Dadinhos”. Um para cada filho.  Dessa forma, sabíamos que ele estivera ali: pela sua assinatura e pela balinha… Apesar do pouco tempo que tínhamos juntos, jamais o sentimos ausente.

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Eu conto isso emocionada, porque já faz quase quatro anos que papai está com Deus e sinto tanta falta de bater papo com ele. Era o que mais fazia conosco. Muita conversa! Nem sempre, claro, concordávamos. Contudo, sempre admirei sua inteligência e perspicácia. Era uma biblioteca viva.

Atualmente, como professora, conto essa historinha aos pais de meus alunos e pergunto a eles: “Já deixaram um ‘Dadinho’ em cima da mesa hoje?”

E, tenho uma vontade enorme de pedir: “Pai, me dá um ‘Dadinho’?”

valeria Valéria Carvalho

Valéria é mãe de lindas gêmeas!  Professora de Português, Inglês e Ensino Religioso, pesquisadora, analista e questionadora das práticas pedagógicas e seus resultados, utiliza de procedimentos democráticos pela inclusão do prazer e sucesso na aprendizagem de seus alunos
 Possui larga experiência na rede particular e pública de São Paulo. Como grande diferencial, proporciona atividades que promovam o fazer e o pensar do aluno como, utilizando-se de apresentação de teatros, músicas, danças e saraus.
 Aos finais de semana é cantora do grupo musical da Comunidade Canto de Maria.

 

23 thoughts on “O nó do afeto

  1. Valéria,gostei bastante do que escreveu, como pai sei da importancia de nossa presença constante em suas vidas. Todos nós temos cada vez menos tempomas nada justifica a ausenciana vida de nossos filhos amados e tão esperados.
    Até o próximo texto.

  2. Olá, Ivan!
    Concordo com você! Já ouviu aquele velho ditado: ” Tempo é questão de preferência!”? E nessa relação maravilhosa de pais e filhos, quando há essa preferência pelo estar juntos, os dois lados saem no lucro!!!!
    Obrigada pela leitura e até a próxima!

  3. Olá, Ivan!
    Concordo com você!
    Já ouviu aquele velho ditado: “Tempo é questão de preferência!”?
    E nessa relação maravilhosa de pais e filhos, quando há essa preferência pelo estar juntos, os dois lados saem no lucro!!!!
    Obrigada pela leitura e até a próxima!

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