PAIS E FILHOS: A PERFEIÇÃO EXIGIDA E AS MEMÓRIAS ESQUECIDAS

PAIS E FILHOS A PERFEIÇÃO EXIGIDA E AS MEMÓRIAS ESQUECIDAS

“Você culpa seus pais por tudo e isso é absurdo / são crianças como você / o que você vai ser quando você crescer?” (Renato Russo)

Lembro quando tinha uns doze anos e um querido primo estava avaliando a música “Pais e Filhos”, da Legião Urbana. No final, há o seguinte trecho: “você culpa seus pais por tudo e isso é absurdo / são crianças como você / o que você vai ser quando você crescer?”

E eu, ainda sem uma habilidade hermenêutica muito desenvolvida, sempre pensava na última frase como uma frase à parte. Como a grande pergunta que temos que nos fazer, por exemplo, sobre o que vamos querer fazer das nossas vidas: se vamos querer trabalhar nesta ou naquela área, se vamos querer morar aqui ou lá, enfim, o problema da ética.

Mas este meu querido primo fazia outra avaliação, juntando a última frase com as frases anteriores. Então, em sua interpretação, era absurdo culparmos os nossos pais por tudo, porque eles são como crianças e porque, em um futuro não muito distante, seremos pais tão crianças como eles.

Assim, pais não são perfeitos, não são super-heróis, pois – ainda que sejam idealizados – eles possuem seus limites. Se ninguém é perfeito, porque o pai e a mãe deveriam ser perfeitos?

Sobre pais imperfeitos

Como fui filho único até os nove anos, não tive o tipo de experiência que vi e vemos das brigas e desentendimentos entre irmãos, ciúmes por este ou aquele ser o preferido, etc. Mas é um fenômeno muito interessante para se pensar.

Na psicologia analítica de Jung, os pais, literalmente, não existem. Melhor dizendo, eles existem para a criança através de uma imago. Em outras palavras, o que o filho ou a filha veem no pai e na mãe não são o pai e a mãe como pessoa independente, distante, com sua própria personalidade. O que o filho e a filha vêm é uma imagem, a imago paterna, a imago materna.

Tanto é que quando conhecemos os pais dos nossos amigos, normalmente fazemos referência a eles como o pai de Fulano, a mãe de Ciclano e muitas vezes nem sabemos o nome próprio. De igual modo, esta é minha mãe, meu pai, não a Maria ou o Luiz.

O filme e o trailer

E é realmente curioso ver como em uma família que tem mais de um filho, os filhos veem os pais de maneiras totalmente diversas. Esta imago, esta imagem, que cada filho tem de seus pais é ativada por um arquétipo. Mas não precisamos ir tão longe e podemos entender que esta imagem é construída através da fixação de determinas cenas.

Afinal, a nossa vida é composta de centenas de milhares de cenas, de acontecimentos, de eventos. Não guardamos todos os dias, todas as horas, todas as conversas em nossa mente. Esquecemos de boa parte do que aconteceu no passado e o que fica como memória acaba constituindo a nossa referência do que foi o ontem e de quem foram estas pessoas que nos criaram.

Gosto da analogia do filme e do trailer. A nossa vida, a totalidade da nossa vida, é como o filme completo. A nossa memória (consciente) retém apenas algumas cenas, alguns trechos desse filme maior. O trailer resume, seleciona, edita e expõe apenas, portanto, partes.

Veja mais – Como você avalia seu passado? Técnica Trailer do Passado

Uma pessoa que tem um trailer de sua infância irá dizer que a sua infância foi muito feliz, muito divertida, maravilhosa. Enquanto que uma pessoa que tenha selecionado somente os momentos difíceis, sofridos, as dores e os lamentos, certamente irá dizer que a sua infância foi um tormento.

Se supusermos dois irmãos que viverem diversos fatos em comum, poderemos perceber como um lembra uma coisa e esquece-se de outra e o outro lembra outra coisa e não lembra o que o irmão lembra.

Enfim, a memória é seletiva. Não existe algo como uma infância inteiramente feliz, nem algo como uma infância inteiramente infeliz.  A impressão posterior vai se basear no que foi selecionado do que aconteceu e no que ficou de fora.

O sofrimento da espera

Em última análise, é impossível sofrer pela falta de alguma coisa que não se espera. Se não esperamos que os nossos pais sejam perfeitos e realizem todos os nossos desejos, não sofreremos.

Evidente que quando se é criança tudo é muito grande e mesmo a negação de um chocolate pode parecer o fim do mundo. Mas, com o tempo, não precisamos manter este tipo de pensamento infantil.

Quando nos tornamos pais, vemos que cada um faz o melhor que pode. Se os nossos pais nos criaram da maneira que criaram, eles fizerem o melhor que podiam naquele momento. E, em muitos casos, é verdade dizer que até a ausência foi uma escolha – se não de todo consciente – do que o pai ou a mãe pensavam que fosse o melhor a ser feito, então.

De toda forma, se não fossem por eles, não estaríamos aqui. Razão pela qual é melhor agradecer do que reclamar.

Quando convivemos com uma criança em casa, desde bebê, percebemos rápido como este novo ser demanda cuidados. Sente fome, dor, frio, fica doente e é indefeso, precisando – de verdade – de toda atenção, carinho e cuidado para que fique bem e sobreviva.

Se pela função da imaginação, nos colocar nesta posição de bebê, novamente, entenderemos como não estaríamos aqui se não fosse pelo cuidado que nos ofereceram…

Estas memórias, geralmente até os 3, 4 anos, são esquecidas… se fosse possível acessá-las… perceberíamos como devemos ser gratos.

Faça este exercício e imagine o quanto de cuidado não foi necessário para que você se mantivesse saudável e vivo.

P/ Professor Felipe de Souza ( http://www.psicologiamsn.com)

 

     Rosana Rossato

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